quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Dia do Biólogo: Entre a celebração e a representação

 

 

 
Há uma diferença importante entre celebrar uma profissão e representá-la. A primeira pode ser realizada em uma data específica, mediante uma homenagem, uma solenidade ou uma publicação institucional. A segunda, entretanto, exige presença contínua, capacidade de interlocução, disposição para o enfrentamento de questões complexas e, sobretudo, compromisso permanente com aqueles que conferem sentido à existência da instituição. Essa distinção merece ser considerada quando se observa a atuação dos Conselhos Federal Regionais de Biologia.

É relativamente fácil reconhecer a importância da Biologia e do Biólogo quando o calendário oferece uma ocasião apropriada. Em datas comemorativas, multiplicam-se as manifestações institucionais que ressaltam a relevância dos biólogos para as Ciências, a conservação da biodiversidade, a saúde, a educação e a pesquisa, bem como para a compreensão dos complexos processos que sustentam a vida. Trata-se de um reconhecimento legítimo e, sem dúvida, necessário.

Mas uma profissão não se fortalece apenas quando é celebrada. Ela se fortalece quando é defendida. E defesa profissional não constitui uma atividade sazonal. Não depende de calendário, de cerimônia ou de efeméride. É uma tarefa cotidiana, que se manifesta na capacidade de acompanhar as transformações do mundo do trabalho, enfrentar a precarização profissional, discutir atribuições, ampliar espaços de atuação, participar da formulação de políticas públicas e estabelecer diálogo efetivo com a sociedade e com os próprios profissionais.

É nesse ponto que a metáfora do filho que aparece apenas nas datas festivas deixa de ser apenas uma anedota familiar e passa a adquirir certa dimensão institucional. Não há nada de inadequado em comparecer ao aniversário da mãe. O problema surge quando a presença nas celebrações passa a ser mais perceptível do que a presença nas dificuldades cotidianas.

Instituições de representação profissional não deveriam ser avaliadas apenas pela qualidade de suas homenagens, mas pela relevância de sua atuação nos períodos em que não há homenagens a fazer.

A pergunta essencial, portanto, não é quantas vezes uma profissão foi celebrada, mas quantas vezes seus problemas foram efetivamente enfrentados. Não se trata, evidentemente, de ignorar as limitações legais, administrativas e orçamentárias que condicionam a atuação dos Conselhos. Tampouco de atribuir a essas instituições responsabilidades que extrapolem suas competências. Trata-se de algo mais elementar: reconhecer que a legitimidade de uma instituição de representação profissional depende, em larga medida, da percepção de que ela permanece conectada às questões concretas da categoria que representa.

E essas questões não desaparecem depois que terminam as comemorações. O biólogo continua enfrentando dificuldades profissionais no dia seguinte ao Dia do Biólogo. A disputa por espaços de atuação não se interrompe porque uma campanha institucional foi publicada. Os desafios da formação profissional, da inserção no mercado de trabalho, da valorização das competências, da remuneração e do reconhecimento social continuam existindo quando as luzes das solenidades se apagam. É justamente nesse intervalo, entre uma comemoração e outra, que a representação institucional revela sua verdadeira dimensão.

Há, nesse sentido, um paradoxo que merece reflexão: quanto mais uma instituição fala sobre a importância de determinada profissão, maior deveria ser sua responsabilidade em demonstrar essa importância por meio de sua própria atuação. A valorização não pode permanecer restrita ao discurso.

Se a Biologia é estratégica para enfrentar a crise ambiental, a perda de biodiversidade, as mudanças climáticas, os desafios sanitários e a crescente complexidade das relações entre sociedade e natureza, então também é estratégico fortalecer aqueles que possuem formação e competência para atuar nesses campos.

Isso exige mais do que reconhecimento simbólico. Exige presença. Presença nos debates públicos. Presença nas políticas governamentais. Presença nas universidades. Presença junto aos profissionais. Presença nas discussões que definem os rumos do mercado de trabalho. Presença, sobretudo, quando defender a profissão não produz aplausos, fotografias ou visibilidade institucional.

Talvez seja essa a diferença fundamental entre celebrar uma categoria e assumir compromisso com ela. A celebração é episódica. A representação deve ser permanente.

No final, a questão não é saber se os Conselhos devem ou não comemorar o Dia do Biólogo. Evidentemente, devem. O que se espera é que a comemoração seja apenas a expressão pública de um trabalho que já ocorre durante todo o ano, e não seu momento mais visível.

Porque uma profissão verdadeiramente valorizada não precisa ser lembrada apenas quando chega sua data comemorativa. Ela precisa ser lembrada quando surgem os problemas. Quando decisões são tomadas. Quando direitos são ameaçados. Quando oportunidades desaparecem. Quando novas fronteiras profissionais se abrem. E quando ninguém está olhando. É nesses momentos, muito mais do que nas fotografias das celebrações, que uma instituição demonstra de que lado realmente está.

A Biologia não precisa apenas de homenagens. Precisa de representação à altura de sua importância. E representação, por definição, não pode ser uma atividade de calendário.

 

P.S.: E antes que comecem as especulações. Não tenho o menor interesse em participar na diretoria de nenhum dos Conselhos de Biologia. No entanto, ainda é minha meta desejar a valorização de nossa profissão. Tenho dito.