sábado, 18 de fevereiro de 2012

Estrutura triangular em PET alia construção civil e meio ambiente

No ano em que o Brasil sedia a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, conhecida como Rio+20 [por acontecer duas décadas após a Eco92], um invento pode revolucionar o panorama da arquitetura e da construção civil: trata-se de Construcell, que consiste em estruturas triangulares produzidas à base de PET e que podem, ainda, se aproveitar da energia solar. O responsável pelo invento é o professor Reginaldo Marinho, que levou o projeto até o Ministério da Ciência e Tecnologia para que, uma vez aprovado, a estrutura seja levada ao conhecimento de todo o planeta a respeito do aproveitamento do plástico reciclado nas edificações. Seu amparo? A frase da presidente da República, Dilma Rousseff que afirmou que "O Brasil, mais do que nunca, precisa de inventores".


O cientista com sua última criação: o Construcell.
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O Construcell é uma estrutura feita de plástico que visa dar mais incremento à construção civil. Não é isso?
A denominação Construcell foi concebida através da junção das palavras "construções" e "celulares". Construcell é um sistema, um modelo construtivo que permite a construção de grandes vãos sem o uso de nenhuma estrutura convencional, através de único elemento, esse módulo que eu posso chamar também de célula.
Como surgiu essa ideia de elaboração da Construcell?
Eu fui professor de geometria descritiva no Colégio Universitário da Universidade Federal da Paraíba, precocemente aos 19 anos de idade. Então eu fui emancipado para assumir um contrato com a UFPB porque eu fui escolhido por notório saber. Meu conhecimento espacial é um conhecimento quase que natural. Então, em determinada época, eu senti que o Brasil tinha – e ainda tem, essa demanda cresceu – uma demanda para armazenagem de grãos. De modo que, inicialmente, esse modelo foi concebido para atender que ainda existe na área de agricultura. Comecei a perceber que ele também poderia servir para a construção de ginásios esportivos, centros de convenções, coberturas de shoppings. Recentemente, ao verificar que a presidente Dilma Rousseff começou a demonstrar, de forma muito clara, que o Brasil precisa ocupar as fronteiras para evitar problemas de tráfico de armas, de drogas, de contrabando, percebi que essa tecnologia poderia servir muito a essa necessidade brasileira para ocupação das fronteiras através de postos avançadas de unidades militares.

Por que isso?
Isso não tem um caráter militar, mas a questão é de autonomia energética. Você não pode criar uma linha de transmissão de energia ao longo da fronteira, que ficaria caríssimo. Então, também você não pode instalar uma unidade avançada de equipamento militar sem energia, porque você vai precisar de comunicações, vai precisar de internet, do rádio, de transmissões e sem energia elétrica você não pode ter esses instrumentos. De modo que, você poderia instalar, ao longo da fronteira, em várias unidades, que seriam dimensionadas pelo Ministério da Defesa, e esse sistema serviria para a construção dessas unidades porque ele permite o uso de energia solar.



Na prática, a estrutura é de que material?
É de PET. Se fosse de acrílico quebraria fácil, por não ter a resistência mecânica compatível com os esforços que essa estrutura demanda. E aí há as interfaces ambientais. Sendo PET, eu posso utilizar para a fabricação do módulo as garrafas que são descartadas no meio ambiente. Recentemente, nós fomos aprovados Prime, um edital da Finep/MCT para apoiar empresas nascentes de base tecnológica, sendo classificado em primeiro lugar e obtendo nota dez em grau de inovação. Isso é, efetivamente, uma comprovação da eficiência tecnológica do produto. O Prime programada Finep para apoiar empresas nascentes. O que existe no Brasil é o seguinte: nós não temos uma cultura voltada para a projeção de tecnologias nacionais. O que acontece é que o modelo colonizado da nossa sociedade é um modelo que não prevê, ou não aceita, não admite que um brasileiro seja capaz de produzir uma tecnologia à frente dos países desenvolvidos. Então, esse é um problema grave, do ponto de vista sociológico, porque nós não temos, ainda, essa condição de vislumbrarmos a possibilidade de sermos mais que os outros, em qualquer setor. Estamos sempre na condição de sermos menos. Agora, esse paradigma começa a mudar, porque a presidente Dilma, na entrega do Prêmio Finep de Inovação 2011, disse pela primeira vez na História do Brasil, que o Brasil precisa mais do que nunca de inventores.

O Brasil precisa inventar…
Essa é uma demonstração nítida de que a atual presidente é uma mulher que tem uma visão estratégica e globalizada, porque a nossa cultura, digamos assim, econômica, é uma cultura vocacionada para a exportação de commodities e recursos naturais de maneira geral. Então costumo dizer que o Brasil é como um herdeiro rico, que fica gastando, gastando, gastando a sua herança, sem contribuir para que aquele patrimônio herdado se torne maior. Outra coisa: nós temos um exemplo raro no Brasil que foi boicotado e eliminado do cenário econômico brasileiro que foi o Gurgel, que foi o único fabricante de um veículo brasileiro. Ele não conseguiu evoluir, mas muita gente dizia que não era um carro que prestasse, e por quê? Se até hoje, na Parada de 7 de Setembro, em Brasília, os militares mantêm e conservam, e desfilam com os veículos Gurgel? Era um carro de pequeno porte, mas hoje o mundo já se dirige para a necessidade de carros pequenos. Então o Gurgel já era, dessa forma, um veículo antecipado. Do ponto de vista da constituição tecnológica.

Mas não é algo meio cíclico? Se não tem investimento, não moderniza, e se não moderniza, não tem aceitação do público e, por isso, volta a não atrair investimento?
Esse ciclo que não é compreendido pela estrutura política brasileira. É preciso que algum instrumento que seja iniciado, seja fomentado. Eu falei antes do Prime. Eu entrei no Prime porque eu queria ser avaliado. Nunca nenhum ministro anterior - e eu já tinha feito contato com vários, mostrava meu CD-Rom contando toda a tecnologia, e ele ia parar no lixo - não tinha o menor interesse em ver aquilo. Nunca houve nenhuma resposta das abordagens que eu fiz anteriormente. Quando o Prime foi lançado, mesmo que o Prime não atendesse a execução tecnológica, eu entrei. Eu já estou sabendo que vai ter um Prime II que vai permitir a execução tecnológica, aí já começa a melhorar esse padrão de fomento à tecnologia nacional. Aí sim, o Governo, o Prime, a Finep vai, através de um edital, fomentar efetivamente, um projeto tecnológico.

O produto final, que será produzido em larga escala, terá as mesmas dimensões da maquete?
Sim. Na linguagem industrial, é um triângulo equilátero, se usa 500 mm em cada lado, com 100 mm de espessura e 3 mm de estrutura. Nós estamos diante de um fenômeno tecnológico de caráter universal. Existe uma tendência, na arquitetura mundial, que eu denomino de arquitetura estruturalista. Na arquitetura estruturalista, a estrutura é quase como a ossatura de uma construção. É como se fosse o esqueleto que se estendesse por toda arquitetura. Diferentemente do arquiteto brasileiro mais aplaudido, que é Oscar Niemeyer, que trabalha com o conceito totalmente inverso: ele abusa dos recursos materiais. Então, quando a gente está vivendo num mundo que converge para a utilização mínima dos recursos naturais, eu acho que essa arquitetura estruturalista é a mais moderna que existe, porque ela atende à necessidade de consumir menos. Então, quanto menos você usar de materiais, mais inteligente ela é.

Você já tem a reação dos profissionais de Construção Civil e da Arquitetura a respeito do seu projeto?
Sim. Já fiz palestras na Universidade de Brasília, na Pós-Graduação em Arquitetura ena Pós em Estruturas, na V Bienal de Arquitetura de Brasília, no XIX Congresso Brasileiro de Arquitetos, no Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), que tem aplaudido desde 1999, quando se publicou a primeira matéria sobre esse projeto. Eu fiz também uma conferência no IX Ndesign, encontro nacional de estudantes de design, que ocorre anualmente. Então, o reconhecimento é pleno. Eu lembro que o diretor da Estação Ciência, quando havia problemas na construção, que houve muitas discussões a respeito da estrutura, ele disse que uma forma totalmente irresponsável que 'aqui não teremos problemas porque as lajestêm 50 cm de espessura'. Ora, se eu estou falando de vigas de 6 mm de espessura, não tem como você confrontar 50 cm com 6 mm.Se for avaliar do ponto de vista da realidade, você tem, numa viga de 6 mm, um resultado muito mais eficiente e inteligente do que uma laje de 50 cm.

E como é que é feita a amarração da Construcell? Por esses furos passam o quê? Parafusos?
Sim, parafusos. O que é interessante é que há um grande problema ambiental na construção civil, hoje, é o resíduo que a construção deixa, de uma maneira geral. Sempre que se termina uma obra, sobra uma quantidade de lixo muito grande. Então, esse resíduo é um problema grave para o meio ambiente, porque você não tem um processamento adequado, e você termina encarecendo a construção. Então, com esse sistema, o resíduo é zero, porque você leva para a obra apenas os módulos que serão utilizados. Se alguém contar errado e sobrar algum módulo, é só levar pra casa.

Você já fez estudos a respeito desse material para estrutura de mais de um pavimento? Ele resiste ao peso?
Não, porque a resistência a peso, ele suporta, mas ocorre que ele tem uma concepção geométrica cilíndrica.

Essa arquitetura
estruturalista é a
mais moderna que
existe, porque ela
atende à necessidade
de consumir menos
[material]"

Ele parece mais reto, mas nas imagens o resultado dá o efeito de cúpula.
A peça definitiva, fabricada industrialmente, terá duas faces ortogonais e uma terceira com uma inclinação de seis ou sete graus para, quando juntar, você ter esse conjunto de lamelas com o ângulo que você escolher para fazer um vão mais largo ou mais estreito.

E a fundação? Como funciona?
É a coisa mais simples. Como é uma estrutura muito leve, não precisa de suporte. Porque a engenharia trabalha com os princípios da Física, de ação e reação. Neste caso, por ser leve, a gente precisa de uma fundação que evite o deslocamento. Eu tenho que ancorar. A fundação poderia ser uma linha de concreto que tivesse um dimensionamento em forma de T invertido, com a garantia da fixação no solo. Eu só preciso que haja esse alinhamento sólido para que eu possa fixá-lo e ancorá-lo.

Pelas suas previsões e pelas reações que você tem recebido, quando você imagina que essa produção será efetivada em grande escala?
A partir da própria palavra da Presidente da República, que declara que o Brasil precisa inventar, eu acho que quem desobedecer está indo na contramão. É preciso que se observe isso, porque o Ministério da Ciência e Tecnologia tem criado dificuldades. São dificuldades efetivas, burocráticas, o que for, mas é certo que o Brasil vai realizar, durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Rio+20, uma feira de tecnologias ambientais brasileiras.

Você vai participar da Rio+20?
Depende do Ministério. Eu fui para uma reunião no MCTpara propor o uso da tecnologia Construcell na Rio+20, mas nada ficou definido.

A tendência é mais de participar ou mais de obstáculo?
Por enquanto, destacam-se os obstáculos. Eu fui para uma reunião achando que ia ter uma decisão. Estou convicto da importância dessa tecnologia para o meio ambiente do planeta. Nós estamos com algumas interfaces ambientais valiosíssimas, que são de caráter planetário, localizadas na Paraíba ou em Brasília, a questão do PET, do lixo, do uso de energias renováveis.

E evita esse acúmulo de PET, que demora tanto tempo a se decompor.
Que fique numa estrutura física de uso coletivo, social, porque nós podemos construir e garantir durabilidade. O interessante é que esse é o raciocínio transparente e cartesiano. Mas se for seguir o raciocínio burocrático, que chego a considerar um raciocínio maldoso, perverso. Porque no momento em que você pede audiência ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e sai de lá sem uma decisão, não é possível, porque se não há decisão porque você não fez a abordagem, é compreensível. Mas se você foi lá, entregou um documento em mãos ao ministro, mais contundente do que isso aqui é impossível. Esse raciocínio é linear: você pega o lixo do meio ambiente e transforma aqui. Espetacular é o resultado e o aproveitamento.
Revista Nordeste, Janeiro de 2012: Tecnologia de plástico.
Entrevista: Onivaldo Junior
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