segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mortandade de tartarugas-marinhas na costa paraibana

Das cinco espécies de tartarugas-marinhas que ocorrem no Brasil, apenas a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), não ocorre na Paraíba. As demais, tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), tartaruga-verde (Chelonia mydas), tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea), e tartaruga-de-pente (Eretmchelys imbricata), utilizam praticamente todo o litoral paraibano como área de desova, sendo a tartaruga-de-pente a mais importante em termos de números de ninhos por ano.

A tartaruga-de-pente é bem frequente na costa paraibana. (Foto: Internet).
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Nos nove anos de coleta de dados realizada pela Associação Guajiru: Ciência - Educação - Meio Ambiente, que mantém o Projeto Tartarugas Urbanas, coordenado pela PhD. e M.Sc. em Biologia Rita Mascarenhas, foram registrados mais de 700 encalhes de tartarugas e, segundo os estudos em outros locais do mundo cerca de 13% dos animais que morrem no mar, encalham nas praias, ou seja, a média anual de mortes é muito mais alta.

O mais preocupante é a causa dessas mortes. Para a Paraíba, aproximadamente 30% das carcaças necropsiadas apresentam marcas irrefutáveis de rede de pesca no corpo. Outros 30% apresentam ingestão de plástico, sendo algumas com total obstrução do intestino por esses materiais; cerca de 10% apresenta-se com mordidas de tubarões; doenças como tumores e infecções são também causas de morte e já observadas. Então, pelo menos a metade das mortes registradas, por meio dos encalhes no nosso litoral são decorrentes de causas não-naturais (ação antrópica), mais notadamente lixo e pesca.

Tartaruga encontrada morta em praia do Município do Conde-PB, em setembro de 2011.
(Foto: Germano Romero).
 Outra coisa importante de se lembrar é que o encalhe em determinada praia, não significa morte nas proximidades. Por exemplo, pode aparecer nas praias da Paraíba uma tartaruga morta em Alagoas. Por isso muitas vezes quando a carcaça chega à praia ela já está em decomposição e exalando odor forte de putrefação.

Nas praias sem urbanização (sem iluminação artificial principalmente), as atividades de reprodução (desova) seguem seu curso natural, a mãe tartaruga sobe à praia, coloca seus ovos estes incubam, eclodem e os filhotes emergem e vão para o mar sem problemas. O maior risco não-natural nessas praias é o furto dos ovos, para a alimentação das pessoas.

Já nas praias com algum tipo de urbanização, os ninhos sofrem com a compactação da areia pela caminhada de pessoas, com a contaminação da areia por esgotos, com a perda da vegetação nativa fiadora de dunas (que são os locais onde as tartarugas desovam preferencialmente) e com a fotopoluição, a presença de iluminação artificial, que desorienta os filhotes que caminham na direção das luzes e morrem de cansaço, desidratação e ou até mesmo atropelados.

A fotopoluição
A fotopoluição, é a presença de iluminação artificial devido à expansão urbana sobre os ambientes naturais, é um fenômeno que altera o ciclo de vida de muitos animais, interferindo em várias atividades vitais de muitas espécies. No caso das tartarugas marinhas a fotopoluição pode inibir as fêmeas de saírem do mar para desovar em uma praia, ou impedir que os filhotes recém-nascidos encontrem o mar. Os filhotes são os mais afetados, pois na sua maioria, ao invés de se dirigem para o mar, vão à direção das luzes, e morrem todos de cansaço, desidratação ou atropelamento na via pública no lado oposto ao mar.

Holofotes instalados nas casas de praia com foco direcionado para o mar, provoca mortalidade
de tartarugas-marinhas. (Foto: Associação Guajiru).
Portanto, a urbanização de praias é uma das maiores ameaças à sobrevivência de tartarugas marinhas, uma vez que há interrupção do ciclo de vida e consequentemente após cerca de 40 anos de urbanização as tartarugas marinhas se extinguem nesses locais, já que os filhotes não retornaram ao mar para garantir as futuras gerações.

Segundo relatos de pescadores e moradores mais antigos do litoral pessoense, várias praias do município eram importantes locais de desova da tartaruga-de-pente, hoje estão com desovas confinadas na praia do Bessa, uma das últimas a serem urbanizadas e com um processo de urbanização menos impactante, já que não conta com iluminação urbana, apresentando somente a iluminação das residências.

Entretanto, mesmo ainda desovando nessa praia, as tartarugas não estão seguras, pois, a iluminação das residências atrapalha, e mais intensamente ainda quando há iluminação extra como holofotes instalados nas casas com foco direcionado ao mar.

Foi o que aconteceu com um ninho que nasceu no dia 2 de janeiro de 2012. Todos os filhotes (65) de tartaruga-de-pente foram encontrados mortos na rota direta de um holofote instalado em uma das residências. Encontrados por trabalhadores do local, e entregues a voluntários da Associação Guajiru: Ciência - Educação - Meio Ambiente que faziam vistoria na praia e a protegia um novo ninho nas imediações.

Tartarugas-de-pente são afetadas pela  fotopoluição, na Praia do Bessa, João Pessoa-PB,
causando-lhe suas mortes, em 2 de janeiro de 2012. (Foto: Associação Guajiru).
E o que se pode fazer para ajudar? Os problemas acima enumerados não são exclusivos do nosso litoral, portanto as soluções definitivas devem ser tomadas em escalas mais amplas.

Com relação à fotopoluição, a Associação Guajiru: Ciência - Educação - Meio Ambiente utiliza várias técnicas para minimização sobre as tartarugas marinhas, mas, há um limite de resistência para esses animais e, portanto a necessidade de leis que modifiquem e/ou impeçam a iluminação artificial nessas áreas de desova e possam assim garantir a sobrevivência desse animais ameaçados de extinção no litoral paraibano.

Com relação às demais ações, a Associação Guajiru: Ciência - Educação - Meio Ambiente sofre duplamente. Pelas tartarugas que precisam de mais proteção e por nós que não conseguimos dar todo o apoio necessário para que essas tartarugas que desovam e nascem na Costa Paraibana possam ser capazes de ... Além disso a ONG sente-se mal perante a sociedade que clama por respostas e mais ações.

Na atual conjuntura, a Associação Guajiru: Ciência - Educação - Meio Ambiente está de mãos atadas, pois a ONG tem poucos recursos humanos e financeiros para ações mais amplas.

Poder-se-ia começar um movimento para buscar soluções, alocação de recursos (a ONG é péssima em captação), e outras campanhas de conscientização sobre o lixo, a pesca, os males da urbanização desenfreada, imediatista e totalmente voltada para um conceito equivocado de “boa qualidade de vida” e outras ações de voluntariado. Uma coisa simples, por exemplo, era ter voluntários que pudessem ajudar a ONG a chegar a todas as escolas, às colônias de pesca, etc.

Rita Mascarenhas
Associação Guajiru: Ciência - Educação - Meio Ambiente


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